Recife: convento e igreja de Santo Antônio


Santo Antônio é um santo especial, todo mundo sabe disso. E não podia ser diferente, afinal de contas na tradição popular é o santo casamenteiro, protetor dos pobres, dos animais, dos pescadores, dos viajantes (beleza !!!), padroeiro dos objetos perdidos…

No Brasil, como em Portugal, é um dos santos mais amados. Antigo padroeiro do Recife, no mês de junho o santo português é comemorado com novenas, trezenas e missas…

E justamente em Recife ficam alguns dos mais preciosos legados da época colonial dedicados ao santo.

Convento e Igreja de Santo Antônio

Os dois monumentos ficam lado a lado na Rua do Imperador, no antigo Bairro de Santo Antonio, em Recife. Apesar de ficarem pertinho da Capela Dourada, o principal ponto turístico do centro histórico, muitas vezes o convento e a igreja de Santo Antônio passam despercebidos, simplesmente porque a beleza dos edifícios não fica na fachada. Quem vê cara não vê coração…

O Convento Franciscano de Santo Antônio, por exemplo, é uma das obras mais antigas do Recife, construída em 1606. A atual Igreja de Santo Antônio, em estilo rococó, fica ao lado do Convento e foi construída no século XVIII. Mas a grande surpresa para o visitante é o precioso acervo de azulejos portugueses e holandeses da época colonial.

convento e igreja de santo antonio

Detalhe de azulejo no Convento de Santo Antônio


A localização

A importância do monumento começa pela sua localização, no coração da Ilha de Santo Antônio e marco do desenvolvimento urbano da cidade, além de local escolhido pelos holandeses como sede de suas possessões em Pernambuco. Inicialmente, a ilha era conhecida como Ilha dos Navios; mais tarde, passou a ser chamada de Ilha de Antônio Vaz, em homenagem a um ilustre português que vivia na cidade.

Na época a ilha era praticamente desabitada. O Convento Franciscano de Santo Antônio foi a primeira grande construção ocorrida na ilha, anos antes do domínio holandês, iniciado em 1630.

Nesse pedacinho de chão foi fundada em 1638 a “Cidade Maurícia“, ou Mauritsstad, pelo conde João Maurício de Nassau-Siegen, governador colonial de Pernambuco. A designação “Cidade Maurícia” persistiu até 1654, ano da expulsão dos holandeses.

Somente em 1789, a ilha foi denominada Freguesia do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio.

A Rua do Imperador representa outro marco na história da cidade. Foi a primeira rua da ilha, onde aliás morou Maurício de Nassau.

Inicialmente formada por três pequenas vias, a Rua do Colégio, a Rua da Cadeia Nova onde ficava o antigo prédio da cadeia nova, hoje o Arquivo Público Estadual, e a Rua de São Francisco, o trecho que fica nas proximidades da Igreja de São Francisco, ao lado da Capela Dourada.

Depois da visita da Família Imperial ao Recife, em 1859, a antiga Rua da Cadeia mudou seu nome para Rua do Imperador D. Pedro II para lembrar o trajeto da corte ao longo da então Rua do Colégio.

Não podemos também esquecer que Frei Caneca, no seu caminho à forca, passou pela Rua do Imperador e que da sacada de um dos seus sobrados Castro Alves convocava a Mocidade Acadêmica com Improviso, o seu poema mais famoso.

O Convento de Santo Antônio

O Convento foi construído em terras doadas pelo senhor de engenho Marcos André Uchôa, fundador do Engenho da Torre, um dos mais importantes na época.

Durante a invasão holandesa, o templo foi ocupado, cercado por muralhas e transformado no Forte Ernesto, com baluartes e canhões. O lugar voltou a ser utilizado como templo somente depois de 1640, mas dedicado ao culto anglicano, ou seja, para os militares de língua inglesa da Companhia das Índias Ocidentais.

Após a expulsão dos holandeses, em 1564, o convento voltou aos franciscanos e foi a partir de então reformado e ampliado várias vezes.

Mas qual é a importância do Convento? Histórica, claro, mas principalmente artística pois o Convento é um dos mais importantes espaços azulejados do Brasil.

Destacam-se os antigos painéis de azulejos de origem portuguesa instalados do claustro do Convento. São ficam vinte e sete quadros de azulejos de grandes dimensões, com episódios do Gênesis, que se encontram no andar inferior e nos corredores: a criação do mundo, Adão e Eva e o paraíso, a queda, a expulsão do Éden, a morte de Adão, Caim e Abel, a torre de Babel, Noé, o dilúvio, Abrãao,  Henoque, entre outros.

Além do claustro, os painéis portugueses recobrem as paredes da igreja, da portaria, da sacristia e da capela interna e são dedicados a milagres de Santo Antônio, martírio, eucaristia e Rosário de Nossa Senhora, respectivamente.

convento santo antonio - azulejos

Detalhe dos azulejos portugueses no claustro


convento de santo antonio - sacristia

Painéis de azulejos e objetos em jacarandá na sacristia do Convento de Santo Antonio


Os quatro painéis de azulejos da capela, com legendas em português arcaico, são decorados com imagens da Batalha contra os Mouros, da Árvore dos Rosários, da Mulher no Poço e da Peste de Coimbra (no altar-mor).

Um raro conjunto de azulejos holandeses, com cerca de 900 peças instaladas, originário de Delft e provavelmente remanescente do Forte Ernesto e do Palácio de Friburgo, erguido por Nassau perto do Convento, encontra-se por cima das arcadas, como friso exterior da sacada do piso superior do claustro. Os azulejos, em branco e azul, não são pintados com imagens sacras mas com figuras de animais, crianças, flores, barcos, paisagens, etc – temas típicos da cerâmica dos Países Baixos da época.

Os azulejos holandeses, descobertos somente nos anos 60, representam a maior coleção de azulejos holandeses do século XVII fora da Europa, e um dos mais conservados acervos do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil.

No Convento encontram-se também inúmeras obras de arte, mobiliário em jacarandá e objetos sacros.

convento de santo antonio - azulejos

Friso de azulejos holandeses em cima das arcadas do claustro


convento de santo antonio - azulejos

Vista do conjunto de azulejos portugueses dentro do claustro


A Igreja de Santo Antônio

O antigo oratório do Convento foi substituído no século XVIII pela atual Igreja de Santo Antônio (atualmente fechada para reformas). Anexa à igreja encontra-se a famosa Capela Dourada (que vai merecer um post exclusivo), separada por um gradil por onde é possível “espreitar” a parte interna da igreja.

A igreja é relativamente pequena com cinco arcos redondos com outros três centrais acima dos mesmos na fachada, janelões emoldurados em pedra esculpida, volutas e três óculos redondos. Frontão com volutas floreadas e brasão da ordem ao centro arrematado por cruz superior e pináculos em labaredas. A torre sineira fica recuada à direita.

O atrativo mais importante da igreja é a presença dos azulejos portugueses com cenas da vida e dos milagres de Santo Antônio. A capela-mor encontra-se iluminada por uma clarabóia e possui uma cúpula monumental, revestida de azulejos portugueses de várias cores (do século XVIII), que formam desenhos com motivos florais. No templo, pode-se apreciar belas talhas douradas e pinturas no teto. A pintura da nave central foi obra do artista Sebastião Canuto da Silva Tavares.

igreja de santo antonio - fachada

Fachada da Igreja de Santo Antônio

igreja de santo antonio ; azulejos

Igreja de Santo Antônio vista pelo gradil da Capela Dourada


Fotos de Adelaide Pereira | Todos os direitos reservados

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