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Explorando Berlim


Berlim foi um destino de viagem adiado por tantos anos. Gostaria de ter ido antes, logo depois da queda do muro. Mas na última hora deixava sempre para a próxima vez…

Não foi fácil montar um bom roteiro para poucos dias porque em Berlim falta aquela força centrípeta que caracteriza as principais capitais europeias. Aquele processo secular que criou os centros históricos de Paris e Roma e os seus monumentos icônicos.

Depois de pesquisas e leituras, cheguei à conclusão que em Berlim precisava usar uma abordagem alternativa, seguindo as atrações que me deixavam mais curiosa e que me emocionavam. E foi uma boa solução.

De qualquer forma o primeiro impacto com a cidade me deixou meio desnorteada. Um lugar difícil de enquadrar, principalmente no caso de estadias curtas como eu fiz. panorama-berlim

Berlim é policêntrica e poliédrica, fruto dos grandes eventos que dominaram a cidade. Aqui tudo foi extremo. O período prussiano, as glórias e as vitórias. O período nazista, o holocausto e a derrota final.

Seguiram a divisão do país e da sua cidade mais emblemática, as perseguições do regime comunista e as restrições da Cortina de Ferro. E, finalmente, depois de 28 anos, em 1989, a queda do Muro de Berlim e a reconstrução. Os canteiros de obras espalhados por todos os lados avisam que Berlim ainda é uma cidade ferida, que não cicatrizou completamente.

Para um turista, visitar Berlim é dar um mergulho na história recente. Eventos quase palpáveis e que ainda não esquecemos. Como se a história ainda não tivesse virado história.

Estas características tornam Berlim complicada. É fácil perder o rumo (e muito tempo…).  O que focar em poucos dias? Como organizar a visita? Aí vão umas dicas para simplificar o planejamento de uma visita de poucos dias.

O enfoque histórico

Não subestime o valor histórico da visita porque é o principal enfoque de qualquer roteiro. Em Berlim falta o acervo histórico e artístico renomado que o visitante está acostumado a encontrar em Paris ou Florença, por exemplo.

Muitos monumentos foram destruídos na última guerra, outros foram reconstruídos na melhor maneira possível. Bairros inteiros foram bombardeados pelos Aliados.

Isto não quer dizer que Berlim não tenha muito o que ver. Pelo contrário. Mas as atrações, aparentemente pouco ilustres, devem ser enquadradas no contexto histórico, nos acontecimentos mais importantes do século XX, como a Segunda Guerra e a guerra fria.

Enfim, a peculiaridade de Berlim é a simbologia histórica, um elo que liga todas as partes da cidade, que ajuda a construir o roteiro da visita.

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A Catedral de Berlim


A cidade dividida

Situada no nordeste da Alemanha, Berlim foi a capital do Reino da Prússia (1701-1918), do Império Alemão (1871-1918), da República de Weimar (1919-1933) e do Terceiro Reich (1933-1945). Hoje em dia, Berlim é centro da área metropolitana de Berlim-Brandemburgo, uma metrópole com 6 milhões de habitantes.

A atual condição de Berlim está ligada principalmente à Segunda Guerra Mundial.  Após a queda do regime nazista, o país foi dividido em quatro setores sob o controle respectivamente dos países vencedores, Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França.

Berlim, a capital, apesar de ter ficado no setor soviético, o maior deles, foi dividida em Berlim Oriental (capital da Alemanha Oriental, sob controle soviético) e Berlim Ocidental, um exclave da Alemanha Ocidental, sob controle das outras três nações, e completamente cercada pelo Muro de Berlim (em alemão Berliner Mauer).

Em outras palavras, Berlim Ocidental era uma ilha dentro da Alemanha Oriental. O muro foi construído em 1961 pela Alemanha Oriental para impedir o êxodo da população de Berlim Oriental para Berlim Ocidental e ficou em pé.

Na realidade o Muro era formado por dois muros paralelos, divididos por uma faixa de terra, a terrível “faixa da morte”, onde dezenas de pessoas perderam a vida tentando fugir de Berlim Oriental.

Várias passagens controladas (checkpoints) entre Berlim Oriental e Ocidental permitiam o trânsito de berlinenses e alemães ocidentais, estrangeiros autorizados e aliados, bem como de cidadãos autorizados da República Democrática Alemã e de outros países socialistas.

Cada passagem era identificada com uma letra do alfabeto fonético da OTAN (Alpha, Bravo, Charlie…). A mais famosa foi o Checkpoint Charlie, na esquina da FriedrichstraßeZimmerstraße, e que ligava os setores americano e soviético.

Ao longo dos anos, o Checkpoint Charlie tornou-se o símbolo da Guerra Fria. Depois da queda do muro, em 1989, o posto de controle foi removido e a cabine original  hoje encontra-se no Museu dos Aliados (AlliiertenMuseum), em Dahlem, no antigo setor americano.

Em 2000, uma reprodução da cabine foi colocada no mesmo local onde se encontrava a original.

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Foto histórica do Checkpoint Charlie


A cidade “reunificada”

A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, foi um importante marco no processo de unificação das duas Alemanhas.

As imagens daquele ano, quando milhares de pessoas derrubaram o muro, ficarão para sempre na nossa memória.

Somente pequenos trechos do muro sobreviveram à demolição e podem ser vistos hoje em dia.

Os restos do muro nas calçadas e no asfalto servem como bússola e lembrete para mostrar aos berlinenses de onde vieram. Uma grande emoção para o visitante.

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Na década de 90 começa a grande reconstrução. O emblema da nova Berlim é Postdamer Platz, quase completamente destruída durante a guerra. A praça passou mais de 40 anos completamente abandonada, entre Berlim Ocidental e Oriental. Terra de ninguém, na realidade, dividida pelo Muro e perto da fronteira entre os setores soviético e americano.

Foi o arquiteto italiano Renzo Piano, vencedor de um concurso internacional, a redesenhar o plano diretor da área e enaltecer a antiga praça.

Outra zona simbólica é a Ilha dos Museus (Museumsinsel). Parcialmente atingida e fechada por muitos anos foi também restaurada depois da unificação pelos arquitetos Giorgio Grassi e Frank O. Gehry.

Hoje Berlim é uma cidade moderna, eficiente e cosmopolita. Em quase 30 anos, conseguiu  readquirir o antigo brilho de capital.

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Foto histórica – ruínas nas redondezas do Portão de Brandemburgo e de uma parte do Muro

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Postdamer Platz depois da reconstrução e a trilha do Muro de Berlim no asfalto


Os principais bairros e atrações de Berlim

Porque cito os bairros de Berlim? Simplesmente porque conhecer a geopolítica da cidade ajuda a planejar o roteiro. Sabendo onde ficavam os antigos setores, por exemplo, é mais fácil identificar os monumentos a serem visitados.

Além disso, às vezes o próprio bairro é a “atração” e merece um passeio, mesmo quando não há um monumento ou um museu.

Depois da guerra, Berlim foi dividida nos famosos quatro setores, que englobavam os vários distritos/bairros da cidade:

  • setor soviético: Mitte, Friedrichshain, Prenzlauer Berg, Köpenick, Lichtenberg, Pankow,  Treptow,Weissensee, Marzahn, Hellersdorf e Hohenschönhausen.
  • setor americanoKreuzberg, Neukölln, Schöneberg, Steglitz, Tempelhof e Zehlendorf.
  • setor inglês: Charlottenburg, Spandau, Tiergarten e Wilmersdorf.
  • setor francêsReinickendorf, Wedding.

O setor soviético era conhecido como Berlim Oriental enquanto os outros três formavam Berlim Ocidental.

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Veja abaixo um mini-guia dos principais bairros com os principais pontos turísticos de cada um. Uma alternativa ao roteiro por bairros, pode ser o roteiro temático, como por exemplo a “Berlim Prussiana” ou a “Berlim Nazista e do Holocausto”. Este tipo de roteiro é ideal para quem curte história. Vou escrever um post específico sobre isso.

Aviso aos navegantes, em dois ou três dias é praticamente impossível visitar todos eles.

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Passeio debarco no Rio Spree


Mitte

Onde: antiga Berlim Oriental

Porque: Em alemão, Mitte significa meio, ou centro, não somente fisicamente mas  histórico, político e comercial.

A parte mais antiga de Berlim fica no Mitte. O bairro é atravessado pelo Rio Spree e foi muito danificado durante os bombardeios da última guerra.

Mesmo depois das grandes obras de reconstrução dos anos 90, hoje em dia ainda existem muitos canteiros em andamento.

Seja qual for o roteiro escolhido, Mitte tem que estar incluído, porque reúne as atrações mais famosas da cidade, monumentos, museus, além de dezenas de centros culturais, galerias de arte, lojas, bares e restaurantes, praças e o parque Tiergarten (ainda dentro do limite administrativo do distrito).

O bairro tem uma ótima rede de transporte e de ciclovias. Hotéis para todos os gostos (e bolsos…).

Um bom início de roteiro é o Portão de Brandemburgoum dos símbolos da “nova Alemanha”, um arco do triunfo neoclássico, na extremidade da avenida Unter den Linden. Ficou fechado para o tráfego de pedestres e automóveis por quase 30 anos.

A visita continua no  Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal) projetado pelo arquiteto Peter Eisenman. É uma área de 19.000 mq coberta com 2.711 blocos de concreto, como um campo ondulado de pedras. É de arrepiar!!!!!!

Nas redondezas fica a Potsdamer Platz, ícone da arquitetura moderna, reconstruída por arquitetos de fama internacional, como Renzo Piano, Richard Rogers, Arata Isozaki e Helmut Jahn. Aqui ficam as sedes de Daimler-Benz, Sony Center e Beisheim Center.

No parque Tiergarten encontra-se a Coluna da Vitória (Siegessäule, em alemão), estátua comemorativa das vitórias prussianas, com 67 m de altura. Lá de cima, a vista é espetacular. Um dos moumentos que mais gostei, talvez influenciada pelo filme de Wim Wenders. Mas a verdade é que a deusa capta cada raio de sol que passa por ali.

Algumas áreas são turísticas demais como o Checkpoint Charlie e Nikolaiviertel, mas é inevitável. Aconselho somente um pulinho rápido para conferir, sem perder muito tempo. Berlim tem muito mais a oferecer.

Por exemplo, duas atrações fora do circuito “clássico” mas que aconselho porque oferecem uma prospectiva diferente para analisar a atualidade e os tempos idos:

  • Hackesche Höfe: complexo de oito pátios (Höfe) em estilo Art Nouveau interligados entre eles. Construído no início do século XX, reformado depois da reunificação. Aqui encontram-se lojas, restaurantes, cinemas, teatro e apartamentos. Pouco turístico mas imperdível.
  • Karl Marx Allee: esplanada monumental de edifícios costruída na década de 50 em estilo “socialista”, ou melhor quase soviético. Começa perto de Alexanderplatz e vai até o bairro de Friedrichshain. Representa o paradoxo da reunificação: de um lado, a glória pomposa da antiga Berlim Oriental e, de outro, a atmosfera “decadente” do passado que foi cancelado. Vale a pena!

Outras atrações: patrimônio da Unesco conhecido como a Ilha dos Museus (complexo dos museus Altes Museum, Neues Museum, Alte Nationalgalerie, Pergamonmuseum e Bode Museum), Catedral de Berlim (Berliner Dom), Rotes Rathaus (“Prefeitura Vermelha”), Unter den Linden, a elegante esplanada que liga a ponte Schlossbrücke e o Portão de BrandemburgoAlexanderplatz  e Berliner Fernsehturm (Torre TV),  Rua FriedrichstrasseGendarmenmarkt (Sala de Concertos e as duas igrejas gêmeas, a Catedral Francesa e a Catedral Alemã),  Nova SinagogaParlamento Alemão (Reichtag ou Bundestag).

Uma ótima fonte de informações sobre os monumentos do bairro é o blog em português “Simplesmente Berlim“.

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O dia nublado ajudou a criar a atmosfera no Portão de Brandemburgo

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Grande emoção no Memorial do Holocausto

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Conjunto de fachadas e a Igreja Nikolaikirche em Nikolaiviertel

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Altes Museum

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Esplanada Karl-Marx Allle com a Torre TV no final

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A Sala de Concertos (Konzerthaus) na Praça Gendarmenmarkt em Berlim

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Coluna da Vitória (Siegessäule) no Parque Tiergarten


 Charlottenburg

Onde: antiga Berlim Ocidental

Porque: Deve seu nome a Sophie-Charlotte, esposa de Frederico I, Rei da Prússia. Nos anos Vinte foi um bairro glamour, com teatros e bistrôs elegantes, frequentados por intelectuais e artistas, principalmente judeus. Sabemos o que aconteceu depois. Durante a guerra foi um dos bairros mais atingidos pelos bombardeios. Hoje o bairro tornou a ser agradável e chic. Moradia da upper class, fachadas Art Nouveau e neoclássicas.

Muito diferente dos bairros mais descolados de Kreuzberg e Prenzlauer Berg e muito menos caótico. O ponto focal da visita é o Castelo de Charlottenburg, residência real em estilo Barroco, e seus jardins. Fica fora do “centro da cidade”.

 O eixo da shopping selecionado é a Avenida Kurfürstendamm (ou Ku’damm) com 3,5 km (!!). Liga a Praça Breitscheidplatz com a Igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche (igreja memorial do Imperador Guilherme) e em seguida com a Praça Rathenauplatz.

Nas tranquilas ruas lateriais, como por exemplo, Fasanenstrasse, encontram-se as lojas mais elegantes de Berlim, cafés e galerias de arte.

Um recanto imperdível, principalmente à noite, para um jantar tranquilo, é a Savigny Platz, onde é possível experimentar culinária alemã de boa qualidade.

Principais atrações:  Avenida KurfürstendammGedächtniskirche, um dos poucos monumentos que sobreviveram à II Guerra, sendo considerado um memorial da um símbolo de Berlim Ocidental, a arena Olympiastadion, marco do nazismo, “KaDeWe” ou Kaufhaus Des Westens, o centro comercial dos ocidentais, versão alemã de Harrods. E ainda o jardim zoológico Zoologischer Garten e o Europa Center.

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A loja de departamentos KaDeWe

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Avenida Ku’damm e a igreja Gedächtniskirche


Friedrichshain

Onde: antiga Berlim Oriental

Porque: Em 1840, em homenagem a Frederico II Rei da Prússia, foi inaugurado um pequeno bosque (em alemão Hain) na extremidade oriental de Berlim.

Ao longo dos anos, na zona desenvolveu-se um importante centro industrial e ferroviário, cujos resquícios podem ser vistos nas redondezas da Ostbanhof, uma importante estação de trem berlinense.

Inicialmente bairro operário, foi parcialmente destruído pelos bombardeios da Segunda Guerra e reconstruído no período socialista segundo um interessante modelo arquitetônico com edifícios ligados por pátios internos (hof).

O marco do bairro é certamente a East Side Gallery, que considero uma das atrações imperdíveis de Berlim. A East Side Gallery é um trecho de muro (ainda) intacto, com 1,3 km de comprimento, na Rua Mühlenstraße, ao longo das margens do rio Spree. Uma galeria de street art ao ar livre. Aqui encontra-se (ainda) o mural com o beijo “soviético” entre Breznev e Honecker entre muitos outros. Pena a pichação selvagem das obras!

Outras atrações: A elegante Frankfurter Tor e e esplanada Frankfurter Allee, o parque Volkspark, reduto de famílias e esportivos, a ponte neogótica Oberbaumbrücke (reconstruída).

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Street art na East Side Gallery

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Ponte Oberbaumbrücke


Kreuzberg

Onde: antiga Berlim Ocidental

Porque: Localizado no setor americano, é símbolo de liberdade porque foi meta de fugitivos vindos de Berlim Oriental. Muitos morreram tentando atravessar o Checkpoint Charlie e a terrível “faixa da morte”, para finalmente viver em terras livres.

É dividido em duas áreas, chamadas respectivamente Kreuzberg 61 e Kreuzberg 36, em consideração dos antigos códigos postais do bairro.  Kreuzberg 61 foi quase completamente destruída durante a guerra e hoje é a parte mais elegante. Kreuzberg 36 é a zona mais multiétnica e multicultural da cidade, com uma população principalmente de origem turca.

O multiculturalismo provoca muitas contradições em Kreuzberg. De um lado, a dificuldade econômica palpável de uma parte de população, do outro, a nightlife às vezes extrema, a culinária étnica, os artistas de rua, a vanguarda. Ponto-chave da visita é a rua Oranienstrasse, a rua que não dorme nunca, muito famosa entre os fãs da contracultura e da arte sem clichê.

O bairro merece uma visita…e algumas reflexões…mas requer também um certo cuidado para evitar ruas pouco seguras, principalmente à noite.

Outras atraçõeso parque Viktoriapark com a sua cascata, a avenida Mehringdamm onde encontram-se dois templos da street food, Curry 36 e Mustafa que prepara o kebab mais gostoso da cidade, o Museu Judaico (Jüdisches Museum), a exposição permanente Topografia do Terror (Topographie des Terrors).

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Lugar tanquilo na Mariannenplatz no coração de Kreuzberg

 

Enfim…fui, adorei e vou voltar!

Fotos: Adelaide Pereira – Reprodução proibida

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