Viajando e aprendendo: como curtir sua viagem


Gente, o assunto hoje é como curtir sua viagem. Que não tem nada a ver com planejamento de viagem (ou melhor, só um pouquinho). Existem trilhões de dicas e manuais na internet que ensinam tintim por tintim como planejar uma viagem nacional, internacional, interplanetária. Não me atrevo a adicionar mais uma.

O que quero dizer é que uma viagem – de qualquer tipo – envolve questões menos palpáveis (e mais complicadas) do que a compra de uma passagem e a reserva do hotel. Questões que podem ser as mais frágeis do seu mega roteiro e que podem estragar suas férias…ou…se você continuar a leitura podem transformar sua viagem em um momento memorável.

Nota: nem sempre consigo seguir as “regrinhas básicas” que tentei resumir abaixo, às vezes por falta de tempo, desorganização ou preguiça mesmo. Mas quando consigo elas me ajudam e muito a entrar no clima e deitar e rolar na minha viagem.

1. Viajar não é (somente) visitar pontos turísticos

Uma das coisas mais desanimadoras durante uma viagem é quando alguém pronúncia a frase fatal: já vimos tudo, podemos ir para o hotel… E são quatro da tarde…

Tudo? Realmente vimos tudo?

A situação é a seguinte: o roteiro do dia foi planejado nos mínimos detalhes. Começa a maratona: parar, olhar, selfies em pé, sentado, deitado, fotos de grupo…procurar o wifi para postar no Face…O roteiro acaba cedo, graças a Deus. Ótimo. O que fazer? A resposta clássica é: vamos embora porque não tem mais nada para ver ou visitar.

Sim, talvez os pontos turísticos tenham terminado. Mas e o resto?

Uma cidade – ou qualquer outro lugar – não é uma soma de pontos turísticos. Conhecer um lugar é uma experiência sensorial a 360° e não significa somente bater ponto em museu ou monumento.

Traduzindo:

  • desperte a sua curiosidade lendo sobre a história e a geografia do lugar (não descobra durante o voo que as ilhas Canárias não ficam no Mar Mediterrâneo…kkkk);
  • experimente a comida local e esqueça a Mc D por uns dias;
  • explore de vez em quando as ruas e os bairros menos concorridos, principalmente nas cidades super turísticas;
  • use transporte público ou bata papo com o motorista do táxi;
  • visite feiras livres ou mercados cobertos (ou brechó para quem gosta);
  • inclua teatro, festival, show ao vivo ou jogo;
  • passeie sem meta, entre nas praças e nos jardins (e se a cidade for tranquila, saia depois do jantar);
  • xerete nas padarias, lojinhas, livrarias, enfim naqueles lugares que os moradores frequentam.

Deixe tempo livre para entrar no clima. Coloque sempre um dia a mais, principalmente em cidades grandes ou turísticas como Paris, Veneza, Roma, etc.

Artesanato local

Explore o artesanato local e não caia na armadilha do souvenir (cerâmica italiana)


2. Não existe a viagem perfeita

Aliás a viagem imperfeita é a melhor viagem porque ajuda a aperfeiçoar sua técnica para lidar com transtornos, contratempos, gente chata… Lições para a vida quotidiana.

Um dos piores defeitos do viajante (e meu também) é procurar a perfeição em tudo. O hotel mais bonito, o trajeto mais curto, o clima mais agradável, os amigos “topam-tudo”, a praia mais relaxante, a comida mais gostosa…E preços imbatíveis, obviamente.

Metas difíceis de alcançar e – quase nunca – na mesma viagem. Pesquise antes de viajar, leia os depoimentos de outros viajantes sobre o mesmo destino e ache as opções que mais combinam com você. Some tudo e veja o que cabe no seu orçamento e nos seus dias de férias. Seja flexível e aprenda a renunciar.

Não exagere com o “tudo tem que ser perfeito”.

3. Viajar é entender e respeitar os lugares, as tradições e as pessoas

Viajar é aprender. Se isso não acontece o risco é voltar achando que nunca deveria ter saído de casa.

O jogo é duro porque para entender o mundo lá fora temos que sair por uns dias do nosso baricentro.

Mesmo viajando em países que parecem com o nosso, encontramos coisas estapafúrdias, distantes dos nossos hábitos. Isso sem falar nos países com tradições indecifráveis (na nossa opinião).

O erro mais comum que cometemos é superfaturar a nossa capacidade de conviver com situações completamente diferentes do nosso modo de ver a vida. É justamente assim que começam os problemas e os arrependimentos.

O resultado pode ser catastrófico:

Um conhecido retornando de Nova York reclamou porque a cidade é moderna demais, não tem nada antigo, nada pra ver…Dois dias em Florença é muuuuito melhor…

Tive vontade de perguntar: você não sabia que Nova York nem existia quando Florença era o centro do mundo? Como pode pensar em achar igrejas do século XVI na Big Apple? E ainda ficar chateado com isso?

Ou então:

– Gostou da Índia?  – Não.

– Porque?  – Não gosto de países onde existem injustiças sociais e pobreza. Nunca mais visitarei um país onde a população vive na pobreza.

Pasmem, ouvi essas frases realmente.

Portanto, para evitar decepções eu recomendo:

  • prepare a viagem, ou seja, leia, leia e leia sobre o destino (como já escrevi acima);
  • leve na bagagem sempre uma pitadinha de humildade e respeito pelas tradições e crenças alheias. E porque não pelo meio-ambiente e pelo patrimônio histórico dos lugares que visitamos;
  • tente interagir com os moradores para descobrir que não são alienígenas mas que tem hábitos diferentes dos nossos ou vivem em condições sociais e econômicas críticas e que não tem culpa disso;
  • sempre que possível, alugue um pequeno apartamento em um bairro residencial e não fique em hotel. Ou seja, entre na rotina do lugar que está visitando.

Resumindo: nada de clichês e preconceitos. Se você já pega o avião achando que a Suécia é linda mas os suecos são insuportáveis porque não batem papo com turista…Bom, é melhor não viajar para a Suécia.

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4. Planejar uma viagem é ter sempre um plano B

Mais importante do que planejar a viagem é levar um plano B na mala.

Nada é mais decepcionante do que descobrir que não vai dar para fazer o que você queria por causa de greve, protestos, feriado nacional, etc. Ou descobrir que você é o único do grupo que gosta de ir à praia, ou a museu, ou que acorda cedo.

Se você planejou bem sua viagem certamente vai ter uma alternativa pronta. O tal plano B que vai ajudar você a mudar a sua programação e inverter os fatores sem alterar o produto.

Anos atrás, com algumas amigas, viajando para Atenas paramos em Belgrado nas vésperas da queda da ex-Iugoslávia. A ideia era passarmos dois dias. Mas quando descemos do trem percebemos imediatamente o clima hostil que pairava na cidade. Ativamos o plano B e decidimos sem pestanejar que era mais seguro prosseguir para a Grécia, pegando o primeiro pinga pinga que passou pela estação.

Como montar um plano B?

  • quando viajar em grupo, inclua atividades e atrativos a mais no seu roteiro pessoal: se sobrou tempo, você não vai ficar na piscina do hotel;
  • não quite todas as reservas antes de viajar (com Booking é possível): você pode decidir na última hora se ficar um dia a mais ou a menos sem ter que pagar multas;
  • leve o seu guia e o seu mapa para mudar de roteiro sem ficar perdido na cidade;
  • leve sempre uma quantidade razoável de cash;
  • leve informações sobre vários tipos de meios de transporte (táxi, metrô, ônibus, trem).

Desfecho da minha viagem para a Grécia: quando chegamos em Santorini, adoramos o lugar e renunciamos ao resto da viagem (que incluía várias ilhas gregas…).

Praia de Elafonissi

O destino é uma praia? Não esqueça que nem todo mundo gosta de sol o dia inteiro (Elafonissi, Ilha de Creta)


4. Aceite seus limites

Você já mediu a sua capacidade de renúncia e adaptação? Tem certeza?

É melhor praticar antes de viajar. É complicado, principalmente quando não estamos viajando sozinhos e temos que aceitar a decisão da maioria. Viajar pode significar engolir muitos sapos para não perder o amigo. Ou para não perder as estribeiras.

Pode acontecer: o companheiro de viagem reclama o dia inteiro do calor do Egito…em pleno verão africano…

E você pensa calado para não brigar: Brother, você não sabia que o Egito é quente? Porque veio?

Em geral somos pouco flexíveis porque Mr. Hábito tem muito força. Não esqueça disso quando planejar a sua próxima viagem. E escolha com cuidado os companheiros de viagem.

Se você não quer abrir mão de nada e não aguenta rojão, é melhor viajar sozinho e escolher um lugar que combine 100% com você. Não arrisque.

5. Coloque rédeas no seu roteiro

Eu deixei para o final a parte mais difícil para mim: não virar escravo do roteiro. Nenhum roteiro é perfeito quando você vira escravo dele. Quantas vezes eu cometi esse erro…

Eu aprendi – pagando caro – que o entusiamo pode matar qualquer viagem. E roteiro mal planejado não vai deixar você curtir a sua viagem.

Todo mundo adora montar roteiros de viagem. É uma delícia. Toda dia você inclui um destino novo que fica a 300 km da sua base mas é “bem pertinho”, uma paradinha aqui e acolá, um museu imperdível, um lanchinho no bistrô mais legal da cidade…Tudo em cinco dias e quatro noites.

Mas esquecemos que “um dia no destino X” pode significar “poucas horas”. Porque? Porque quando você chega no aeroporto seu dia turístico nem começou ainda. Você tem que ir para o hotel, fazer check-in, tomar banho porque ninguém é de ferro, lanchar porque no avião não tinha comida, comprar a passagem do metrô, etc, etc.

Lá pelas tantas finalmente você vai chegar no primeiro ponto turístico. Sabe quanto tempo leva isso? Você calculou esse tempo no seu roteiro?

Duvido. 99% das vezes, a resposta é não. Vejo isso sempre nos comentários aqui no blog.

Quanto mais cheio fica o roteiro mais aumenta o risco de aborrecimentos. E diminui vertiginosamente a possibilidade de curtir a viagem.

Reveja as prioridades antes de sentar no avião. Quero dizer, deixe somente o essencial. Coloque o resto em stand-by e veja o que vai rolar durante o dia. Evitar de replicar a correria do ano inteiro durante as férias.

E prepare-se para curtir a sua viagem, apreciar as paisagens, tomar uma cerveja gelada num bistrô, comer um sanduba sentado no parque e perder tempo numa lojinha. Sem hora marcada. São as melhores lembranças da viagem.

Última dica: leve pouca bagagem. Quanto menos, melhor.

como curtir sua viagem - Washington Square

Ninguém é de ferro, muito menos turista (Washington Square, NY)


Fotos de Adelaide Pereira – Reprodução proibida

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