marsala-salinas

Sicília: roteiro entre Trapani e Marsala


A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo, terra de muitos contrastes e estereótipos. Felizmente a Sicília não é somente Poderoso Chefão mas um destino rico de história, natureza exuberante e enogastronomia de qualidade.

A Sicília é um lugar tranquilo mesmo na alta estação, com exceção de algumas cidades muito turísticas, como Taormina ou a praia de San Vito Lo Capo, perto de Trapani. Você consegue visita-la sem ter que nadar no meio de centenas de turistas como na Toscana, por exemplo. Sem falar das praias que, principalmente nas pequenas ilhas, são pouco concorridas e exploradas.

Não pense de encontrar na Sicília o agito de algumas ilhas gregas, com discoteca o dia inteiro ou festas nas praias até o sol raiar. Principalmente nas cidades pequenas, o tipo de diversão que você encontra na Sicília é mais autêntico e discreto. Um ritmo gostoso, aconchegante e descontraído.

Historicamente, a Sicília sempre teve um papel muito importante no Mediterrâneo. Devido a sua posição geográfica, entre a Calábria e a Tunísia, a ilha sempre foi alvo de invasões e dominações estrangeiras: fenícios, gregos, romanos e, mais recentemente, vândalos por volta de 400 d.C., espanhóis, entre 1500 e 1700, passando pelos árabes e normandos.

As antigas civilizações deixaram monumentos e vestígios que ainda hoje podem ser visitados nas cidades históricas ou nos sítios arqueológicos de importância mundial, como Agrigento, Siracusa, Segesta e Selinunte.

A Sicília tornou-se italiana somente em 1861, 154 anos atrás, com a Unificação da Itália, detalhe importante para entender as profundas diferenças culturais em relação ao norte da Itália. Hoje a Sicília é uma das cinco regiões italianas autônomas, com um estatuto de governo especial além de privilégios legislativos, administrativos e fiscais.

A natureza foi generosa por estes lados. Além dos famosos vulcões (Etna, Stromboli e Vulcano), algumas ilhas do arquipélago siciliano são consideradas pérolas do Mediterrâneo, como Lipari (Isole Eolie), Favignana (Isole Egadi), Lampedusa (Isole Pelagie) e Pantelleria, bem pertinho da África.

centro-de-marsala

Centro de Marsala, com o detalhe das ruas em mármore


O roteiro

Roteiro de quatro ou cinco dias, na ponta oeste da Sicília, entre Trapani e Marsala, passando pelos sítios arqueológicos de Segesta e Selinunte, pelas Salinas de Marsala e pela antiga cidade de Erice. Pode ser uma esticadinha do circuitão clássico Palermo-Agrigento-Siracusa-Taormina.

O roteiro passa no coraçao da Sicília genuína, entre colinas e paisagens marinhascomeçando e terminando em Trapani, ou encaixado entre Palermo e Agrigento.

A base do roteiro pode ser Trapani ou Marsala.  As duas cidades são litorâneas e tem porto com opções de ferry para visitar as ilhas Egadi. Trapani tem a vantagem do aeroporto e do teleférico que leva até Erice.

As visitas podem ser feitas com bate e volta porque as distâncias são curtas:

  • Trapani – Marsala: 30 km
  • Trapani – Erice (de carro): 15 km
  • Trapani – Templo de Segesta: 35 km
  • Trapani – Templo de Selinunte: 85 km
  • Trapani – San Vito Lo Capo: 40 km.

A região oferece várias especialidades enogastronômicas, como o cuscuz com peixe, massas sicilianas, pães recheados e a famosa granita de Trapani.

A maneira mais fácil para conhecer a região é alugar um carro diretamente em Trapani como eu fiz, com a possibilidade de continuar para Agrigento. A alternativa é usar os transportes públicos, mas precisa aumentar o tempo de estadia devido as baldeações entre as várias cidades.

O roteiro pode ser feito o ano inteiro porque o clima da Sicília é ótimo, pouco chuvoso com temperaturas agradáveis no inverno, principalmente no litoral.

O ideal seria programar uma viagem durante a primavera ou fim de verão para encaixar uma parada de relax em San Vito lo Capo ou na ilha de Favignana (Isole Egadi), no litoral entre Marsala e Trapani.

Trapani

Trapani fica em um amplo promontório no litoral oeste da Sicília. Foi fundada em 1184 a.C. como porto e empório comercial da antiga cidade de Erice. Ao longo dos séculos transformou-se em um polo comercial muito importante no Mediterrâneo devido à extração de sal nas salinas de Marsala e à pesca do coral. Hoje a economia é baseada principalmente na extração de sal marinho, na pesca (principalmente atum) e na produção de vinhos.

Como toda a região, a cidade foi dominada pelos fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos, espanhóis…enfim…uma terra de conquistas.

O centro da cidade é muito bonito com monumentos barrocos e espanhóis, limpíssimo, com ruas somente para pedestres, para negar o cliché da Sicília suja e desorganizada.

O que ver

  • Catedral de São Lorenço: igreja em estilo barroco, construída em 1421 durante a dinastia Aragão e reconstruída no século XVIII.
  • Basílica-Santuário di Maria Santissima Anunziata: construída inicialmente por volta de 1200 e depois ampliada; fica na Via Pepoli.
  • Torre di Ligny: forte espanhol.
  • Via Garibaldi: uma das principais ruas da cidade, em estilo aragonês, onde encontram-se muitas igrejas e palacetes antigos, como o Palazzo Senatorio, Palazzo Riccio di Morana, Palazzo Milo e a Badia Nuova.
  • Granita do Colicchia: uma das granitas mais famosas da Sicília. Se você nunca tomou a verdadeira granita siciliana, não pode deixar de entrar neste barzinho bem simples na Via delle Arti.
centro-de-trapani

O centro de Trapani. Show de fachadas e piso das ruas


Marsala

Antiga cidade litorânea fundada em 397 a.C. pelos fenícios depois da destruição da colônia de Mozia, pequena ilha próxima à costa siciliana. O nome atual foi dado pelos árabes – Marsa Ali (porto de Ali) ou Marsa Allah (porto de Deus). É famosa pela extração de sal e pela produção do Marsala, vinho licoroso com “denominação de origem controlada”, inventado em 1770 pelo inglês John Woodhouse.

É um marco da história italiana porque, em 1860, foi o porto de chegada da expedição de Garibaldi com mil voluntários para libertar a Sicília da dominação bourbônica. Foi o primeiro e o mais importante passo para a Unificação da Itália em 1861.

O que ver

O centro histórico é pequeno, pode ser visto em poucas horas, quase todo para pedestres, muito bem cuidado, com calçadas e ruas em mármore branco (uma maravilha!). Imperdível a visita às Salinas, localizadas nos arredores da cidade.

  • Porta Garibaldi: construída em 1685 mas conhecida como Porta Garibaldi porque Garibaldi passou através dela em 1860.
  • Quartiere Spagnolo: antigo bairro espanhol, sede do quartel usado pelas tropas espanholas, construído em meados de 1500. Hoje é sede do Município.
  • Duomo di Marsala (Catedral de Marsala): construída no século XVII pelos ingleses em homenagem a São Tomás de Canterbury.
  • Cantinas Florio: antigas cantinas em estilo inglês do principal produtor do vinho Marsala. Possibilidade de reservar uma visita com degustação (custo: 10 euros) no site oficial.
  • Mercato del Pesce (mercado de pescados): entrando pela Porta Garibaldi, fica no lado esquerdo. Um ótimo lugar para fotografar o o dia-o-dia dos sicilianos. Durante o verão, tem quiosques que vendem aperitivo e tira-gostos.
  • Laguna dello Stagnone: lagoa salgada, muito rasa, nos arredores de Marsala. Stagnone em italiano quer dizer grande lagoa rasa com águas estagnadas. Uma paisagem muito original, ótima para fotografias. A lagoa é uma reserva natural e uma das suas atrações é o por do sol.
  • Salinas de Ettore e Infersa: ficam na Lagoa de Stagnone, ao longo da estrada entre Trapani e Marsala. Sem dúvida é um dos lugares mais bonitos da Sicília. Os moinhos de vento e os montes de sal no meio do xadrez dos tanques e das águas represadas formam uma paisagem rara. O sal ainda hoje é extraído manualmente e portanto tem um alto valor comercial. Somente algumas salinas funcionam enquanto que as outras viraram habitat para aves, principalmente o maravilhoso flamingo. Para curtir o panorama, aproveite o bar “Mamma Caura” na frente das Salinas (a comida não é nada especial mas vale pela posição).
  • Mozia (ou San Pantaleo): pequena ilha entre Trapani e Marsala, foi uma colônia fenícia. É um lugar que parou no tempo, literalmente, ideal para quem gosta de arqueologia. Para visita-la precisa pegar um barquinho e atravessar a lagoa. A viagem dura 5 min. Na ilha tem um museu e outros vestígios arqueológicos.
marsala-catedral

A Catedral de Marsala

marsala-salinas

Salinas de Marsala


Erice

Erice fica a 15 km de Trapani, debruçada em cima do Monte Erice a 750 m acima do nível do mar. Para visitar a cidade a melhor opção é o teleférico que sai de Trapani (10 min de viagem) ou ônibus. Indo de carro, tem que estacionar fora das muralhas antigas.

A origem da cidade é mitológica: a lenda conta que foi fundada por troianos fugitivos, mas a verdadeira origem da população primitiva é ainda desconhecida. Importante centro durante o período fenício, foi conquistada pelos Romanos em 244 a.C. Como outras partes da Sicília, foi em seguida dominada pelos árabes, normandos e espanhóis.

A cidade parece um forte medieval, cinzento, enraizado na montanha, com muralhas, torres e portões normandos. A vista é maravilhosa porque abrange Trapani, a costa oeste e as ilhas Egadi. Vale a parada.

Em Erice, tudo é bonito, desde a Catedral (Chiesa Madre), construída em 1314 durante o Reinado de Aragão, até as vielas medievais com bistrôs e restaurantes típicos.

A atração mais importante é o Castello de Venere (Castelo de Vênus) construído durante o período normando, mas a sua origem é muito mais antiga. Diz a lenda que no local existia um templo romano de adoração à deusa Vênus.

Toda a cidade é protegida por uma muralha muito bem conservada construída entre os séculos VIII e VI a.C.!

Uma dica gastronômica: visita à confeitaria mais famosa da região, a Pasticceria Maria Grammatico. E’ um show de doces de amêndoas, pistache e outras delícias sicilianas.

sicilia-castelo-erice

Castelo de Erice

centro-de-erice

Vielas medievais no centro de Erice


Templo de Segesta

Templo grego localizado em Segesta, antiga cidade fundada pela população primitiva que povoou a zona oeste da Sicília. O templo fica no sítio arqueológico de Calatafimi-Segesta. Construído no século V a.C. em perfeito estilo dórico, mas sem alguns detalhes arquitetônicos típicos dos templos gregos. Este aspecto histórico ainda não foi completamente explicado. Uma das teorias mais prováveis é que a população de Segesta não era grega e o templo não tinha valor religioso.

O parque tem outras atrações como os vestígios de uma mesquita e um teatro grego esculpido na rocha, com capacidade para 4000 pessoas, construído no século III a.C.

Segesta era rival de Selinunte, cidade dominada pelos gregos, onde fica o outro sítio arqueológico de Trapani. A cidade foi completamente destruída pelos vândalos no século V.

Para visitar o sítio arqueológico, precisa estacionar fora da área e ir a pé até a entrada.

Horário: 9:00-18:00 (verao) e 9:00-16:00 (inverno).

Preço: 6 euros.

templo-de-segesta

Templo grego de Segesta

teatro-grego-segesta

Teatro grego na antiga cidade de Segesta


Templo de Selinunte

O templo dedicado à deusa Hera fica no sítio arqueológico de Selinunte, antiga cidade grega. Construído por volta do século VI  a.C. em estilo dórico. Interessante a localização do templo, perto da praia, em cima de dunas de areia. Um panorama muito bonito.

O sítio possui outros templos e monumentos, mas o templo de Hera é o único bem conservado.

A “vida” de Selinunte durou pouco, somente 240 anos. No ano 409 a.C. foi completamente  destruída pelos cartagineses. Os restos foram destruídos em seguida por terremotos durante a Idade Média.

Horário: 9:00-18:00 (verao) e 9:00-16:00 (inverno)

Preço: 6 euros.

teatro-grego-selinunte

Templo grego de Selinunte


 

icona sabores

Na Sicília come-se bem em qualquer lugar. Não precisa procurar restaurante com estrelas Michelin. A melhor experiência é tentar os restaurantes familiares, simples, com o cardápio do dia “falado” e “gesticulado” (os garçons sabem tudo decoradinho). Você vai se sentir em casa e apreciar a famosa hospitalidade siciliana.

A gastronomia da região de Trapani é muito especial poque reúne pratos que não existem em outras zonas da Sicília. São pratos geralmente de origem árabe que usam peixe no lugar da carne.

Um exemplo é o “cuscus alla trapanese“, prato tradicional árabe, mas servido por estes lados com vários tipos de pescados.

Para curtir a atmosfera é bom conhecer as principais tradições culinárias locais e os ingrediente típicos, entre eles, atum (até mesmo cru), tomates secos, alcaparras, açafrão, pistache, amêndoas, laranja e limão. Os principais pratos salgados são feitos com peixe, crustáceos e moluscos, enquanto que os doces são feitos com ricota, amêndoas e pistache.

Café da manhã siciliano

O café da manhã siciliano é completamente diferente do resto da Itália. O siciliano começa o dia com brioche e gelato (croissant recheado com sorvete, isso mesmo, sorvete!) acompanhado por um copo de granita de amêndoas ou de limão. Segue um cafezinho expresso super “ristretto” (praticamente um dedo mindinho de café preto na chícara).

Massas sicilianas

A massa siciliana iconica é “pasta con le sarde” feita com sardinhas frescas (ou aliches), amêndoas picadas, uva passa, açafrão e sementes de erva doce (em italiano “finocchietto“).

Outra massa que não pode faltar é a “pasta alla norma“, típica de Catania, feita com molho de tomates (pomodori pelati), fatias de beringela, manjericão e uma raladinha de ricota curada.

Na região de Trapani, o prato-chave é o cuscuz salgado, chamado cuscus alla trapanese, com peixe, camarão, mexilhões, tomate, açafrão, etc. Na realidade não é considerado um “primo piatto”, ou seja uma massa, mas um prato completo. Passando por Trapani, não deixe de experimentar esta especialidade. É um show!

Outros pratos típicos de Trapani são o caldo de peixe (pasta al brodo di pesce), o caldo de lagosta (pasta al brodo di aragosta) e massas em geral com o “pesto alla trapanese“, um tempero feito com manjericão, amêndoas, azeite, alho, tomate e queijo de ovelha ralado.

O atum (cozido ou cru) é muito usado nos pratos de Trapani e Marsala.

Doces sicilianos

Os doces sicilianos são famosos no mundo inteiro. Os cannoli recheados com ricota fresca, pistache ou laranja cristalizada não precisam de apresentação.

Se chegou até aqui, não deixe de experimentar os docinhos de amêndoas ou de pistache porque afinal são produtos típicos da Sicília, a “cassatina”, versão mignon da cassata siciliana, a granita e um suco de laranja espremido na hora.

comidas-tipicas-sicilia

Cannoli, cassatina e granita de pistache!


Comidas de rua sicilianas

Na Sicília tem que visitar as feiras livres. É uma viagem na viagem. É como ir à Roma e não ver o Papa. As cores das frutas e das verduras, o perfume de ervas e de peixe, os gritos e as graças dos vendedores são imperdíveis.

Geralmente nos mercados encontram-se vários quiosques que vendem comida de rua, ótima opção de lanches, muito barata. Na região de Trapani e Marsala, as principais são:

  • panino con le panelle: na verdade é uma receita de Palermo, mas encontra-se em qualquer cidade. É um sanduíche com pão típico siciliano com sementes de sésamo, recheado com quadradinhos fritos feitos com farinha de grão-de-bico. Em Marsala aconselho o quiosque da entrada do mercado de peixe. 
  • pane cunzato: pão recheado (ou coberto) com tomate, alcaparras, orégano e queijo fresco (ou atum); vendido nas padarias.
  • arancine: são os famosos bolinhos de arroz recheados com carne (ou presunto), ervilhas e queijo.

Fotos: Adelaide Pereira

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *